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Quando quadrinhos podem ser tristes

Quando quadrinhos podem ser tristes

Quadrinhos já retrataram o drama de prostitutas, cidades devastadas pelo pela bomba atômica, meninas que ficam grávidas de rapazes que não amam. Mais uma vez os quadrinhos dão voz a um drama autobiográfico. Imagine descobrir com pouco mais de 4 meses de gravidez um câncer no colo do útero e ter coragem de retratar momentos tão particulares e delicados. A ilustradora Matilda Tristam utiliza imagens simples, mas um drama profundo para retratar a sua história. A reportagem foi publicada pelo jornal britânico The Guardian no dia 18 de maio de 2013. Nós do Mangamono preparamos uma tradução livre, isso para provar o quanto histórias pessoais podem ser tão fantásticas quanto obras fictícias.

Inicia aqui a tradução livre do grupo Mangamono.

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Matilda Tristram escreveu um belo relato sobre seu drama: descobrir um câncer de colo do útero com 17 semanas de gravidez. Chamei-a de “graphic novel”, mas ela delicadamente corrigia como “comics”. Você tem uma sensação de que a ela é uma daquela terminologia. Ela é modesta, sim, mas o que é mais impressionante é a maneira irônica, sua determinação anti-histérica de olhar as coisas. Mesmo se eu pudesse imaginar o quão difícil seria passar por uma gravidez tendo a quimioterapia, eu nunca seria capaz de entender como você pode passar por tudo isso e não surtar.

Sentado no Hackney, apartamento que divide com seu namorado, Tom, ela insiste em não pirar. “Eu me sinto muito infeliz, e é difícil não ter auto piedade.” Especialmente com câncer, há um monte de dispositivos sobre pensamento positivo em torno dele. As pessoas sempre falam sobre isso como algo que você está lutando, e se você não agir de maneira positiva, o câncer vai voltar. As pessoas sugerem que se você é uma pessoa positiva, o seu corpo vai lidar melhor com a doença. É tudo um pouco “- ela faz uma pausa, como se considerasse dizer e, em seguida rejeitar 17 palavrões diferentes – “suspeito”.

A ilustradora ficou grávida aos 30 anos – “Não foi planejado, mas nós dois estávamos muito felizes” – a gravidez prosseguiu por quase quatro meses sem incidentes. Tendo estudado animação no Royal College of Art, Tristram estava trabalhando em vários shows para o canal CBeebies. CBeebies é um canal televisivo destinado ao público infantil da rede BBC.  Tom estava trabalhando em tempo  parcial como uma babá, e estavam juntos co-escrevendo um livro quando tudo aconteceu.

Olhado de fora, essa vida parece ter sido completamente construída para acomodar um bebê (o casal trabalha em casa), mas ela parece surpresa com a sugestão. “Nós nunca tínhamos realmente falado sobre ter filhos”, diz ela.

De certa forma, a nossa história sem a doença seria perfeita, e isso é uma das coisas interessantes sobre as ilustrações de Tristram. Eles são diretas, sutis, parecem simples, mas não são, (o equilíbrio entre o humor e o medo é muito tenso) e, acima de tudo, são imagens generosas, permitindo ao leitor valorizar o mundo comum, dando-lhes a visão de fora tão comovente.

Apesar de ser tão cética a respeito do clichê formulado sobre o câncer – o câncer é uma guerra em que a sua autoestima tem que estar elevada contra as mutações celulares – Tristram parece, por natureza, propensa a olhar para o lado positivo. “Mesmo com essa coisa terrível acontecendo, todos continuam dizendo quão sortuda eu sou. É muita sorte que o tumor tenha bloqueado completamente o colo do útero, isso impediu os médicos de encontrá-lo mais cedo. Além disso, o momento da gravidez em que o tumor foi encontrado foi essencial para que ela pudesse se manter grávida e com o câncer simultaneamente. Se o tumor tivesse sido descoberto mais cedo, eu teria que fazer um aborto, porque não é possível fazer quimioterapia no primeiro trimestre. E se tivesse acontecido um pouco mais tarde, teria sido muito mais difícil de operar sem perturbar o bebê.”

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Matilda ficou doente quando tinha 15 semanas de gravidez. Houve um triste hiato quando todos acharam que ela estava com um problema digestivo relacionado à gravidez, apesar de ficar deitada no chão de sua empresa para aliviar a agonia. Em seguida, foi diagnosticado um tumor e os testes foram realizados. Desde então, os médicos tem sido incríveis e o casal tem enfrentado decisões horríveis. “A oncologista é ótima”, disse Tristram. “Ela é muito direta. O cirurgião é brilhante – ele é um cara muito atencioso, e também está esperando seu primeiro bebê.” (Ela me diz mais tarde que gostaria de dar o mesmo nome do médico ao bebê. Ele se chama Sanjay. Consideramos por um segundo se vai parecer estamos tentando desviá-lo da herança. Acho que não, provavelmente …) “Eles estavam muito chocados que o tumor voltou cancerígeno, e não estávamos todos de acordo sobre o que eu deveria fazer. Então, Tom e eu fizemos a nossa própria investigação e decidimos “.

No aniversário de Tom, foram apresentadas três opções: os quadrinhos retratam muito pouco, cabecinhas flutuantes parecendo confusas, enquanto gesticula a oncologista, sendo tão franca quanto pode. “Faça quimo agora e terá o risco de prejudicar o bebê. Abortar o bebê e começar a quimioterapia depois disso – E devo alertá-la de que a quimioterapia pode torná-la infértil. Ou adiar o tratamento até depois do bebê nascer.”

Sua reação imediata foi a de ir até o Shard, (eles tinham comprado ingressos meses antes), e decidiram se casar. Mais tarde, ela diz, “nós procuramos tudo no Google como loucos”. Procuram por risco para o feto de quimioterapia, e é apenas um pouco maior: 5% dos bebês normais têm problemas e 10% cujas mães tinham quimioterapia tem problemas. Os problemas não parecem ruins; são coisas como ter uma mancha escamosa da pele sobre a cabeça do bebê.

“Na época, todas as opções pareciam completamente horríveis, mas agora parecem menos ruins. Mesmo assim parece arriscado, mas é muito bom ter um bebê para pensar quando estou em uma sala de quimioterapia, cercado por pessoas de 80 anos de idade com um ar realmente miserável. Neste ar de morte, pensar em uma nova vida é realmente útil “. O bebê deve nascer em julho.

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A decisão de escrever uma história em quadrinhos sobre o processo era uma questão complicada – Tristram colocou elementos de sua vida em seu trabalho antes, mas nunca tinha feito nada tão autobiográfico. “Muita gente que não conheço bem me envia e-mails querendo saber como eu sou, e como estou na quimioterapia. Ter algo que eu possa mostrar para as pessoas é ótimo. E acho que eles são capazes de ver e entender o que está acontecendo.”

É um território complicado – ela não quer ser rude com os bem-intencionados. Quem seria rude com um simpatizante? – “Mas algumas pessoas reagem estranhamente. Há um monte de gente baixando a cabeça com pena e simpatia, e você percebe o nervosismo quando falam comigo. Isso me faz querer ser irreverente sobre a coisa toda, para colocar as pessoas à vontade”.

Mas isso não significa que produzir os quadrinhos lhe permite tomar uma iniciativa sobre a doença. “Eu não me sinto muito no controle de nada do que está acontecendo no momento. Eu me sinto um pouco como um carro quebrado, que passou de mecânico em mecânico. Acabei de fazer o que eles me disseram para fazer. Talvez criar uma história em quadrinhos me fez sentir um pouco mais no controle dos meus pensamentos, para que eu me lembre das coisas que valem a pena lembrar – existem algumas coisas que eu não incluí, porque são muito ofensivas ou desagradáveis. Todavia, eu também me sinto um pouco separada do meu corpo. Está crescendo um bebê, minhas células estão fazendo todas essas coisas em um nível molecular, e eu não sei nada sobre isso. Não se parece com o corpo que eu conheço. Mesmo que ele seja um sifão de litros de bile saindo de você, e  te cortando em pedaços, e algumas semanas mais tarde você estará bem novamente. O corpo é algo realmente incrível “.

Assim que recebeu o diagnóstico, Tristram convidou seus pais e Tom para um encontro. Ela retrata uma reunião extraordinariamente estranha na qual seus pais teriam que se ajustar ao esquema Faça Você Mesmo, Do it yourself, caso contrário, todos teriam que estar apenas  imaginando se deveriam ou não falar sobre o câncer – o resultado foi que eles montaram uma bicicleta ergométrica que fica intocada no canto da sala.

“É porque o oncologista me disse que, após quimioterapia terminar, devo exercitar 40 minutos por dia, todos os dias. Assim como devo comer 10 porções de frutas e legumes todos os dias.” Ela faz uma cara que é uma mistura de diligência e vexame – ela já estava comendo muitas frutas e legumes. Ela não precisa de ninguém para lhe dizer que cogumelos shiitake são bons para a saúde.

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“É muito incomum para alguém tão jovem como eu, também incomum para alguém que é muito saudável, que não bebe ou fuma.” No entanto, há um sentimento de culpa que paira sobre o câncer, mesmo em pessoas tão jovens que não tiveram tempo para desenvolver um estilo de vida saudável.

Ela é muito mais filosófica: “Algumas pessoas se sentem como se estivessem no controle como se rala um limão sobre a comida, no entanto, você não está no controle das drogas quimioterápicas que você está tomando”.

De qualquer forma, a maioria das pessoas não aconselha sobre seu estilo de vida ou qualquer coisa relacionada à fruta crua. Um monte de amigos de Tristram tem sido ótimos. As pessoas que têm uma história otimista para contar são ainda melhores. “Como o pai de uma garota que conheço, todo o cabelo de seu corpo caiu, mas sua barba e seus cabelos ficaram. Pensei isso seria ótimo. Outra garota enviou um e-mail, cuja amiga de uma amiga tinha exatamente o mesmo câncer que eu, ela estava grávida também. Ela removeu o cólon, mas está bem agora.”

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Além de curiosos, é difícil identificar o que o torna estes quadrinhos tão magnéticos. Seu humor é muito mercurial, mas você não pode segui-lo sem questionar o seu próprio interesse. Se fosse apenas voyeur, isso o deixaria se sentindo um pouco estúpido. Mas há algo na maneira como ele é apresentado, as mudanças de velocidade ágeis, a honestidade, que o faz se sentir como leitor, um companheiro em sua jornada, ao invés de um espectador.

Tristram é bastante divertida sobre as exigências da narrativa, e descreve a distância que coloca entre ela e a doença como uma espécie de alívio. “O que eu realmente quero no momento são distrações. Escrevendo sinto que isso me alimenta, mas essa é a única coisa que eu não me importo é me alimentar disso. Eu fico pensando: ‘Deus seria um final melhor se eu morresse. ‘ E depois penso, ‘Não, não, isso não é um bom final.”

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Tradução terminada, quem quiser conferir o link original da entrevista e um vídeo em inglês sobre o drama de Matilda pode clicar aqui: http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2013/may/18/discovered-colon-cancer-while-pregnant

Os interessados em conhecer um pouco mais desses quadrinhos podem conferir seus trabalhos no site oficial da ilustradora: mmaattiillddaa.com/

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