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Leituras combinadas

Leituras combinadas

Em meio a turbulência causada as vendas de quadrinhos impressos causada pelas publicações digitais  surge uma notícia que pode agradar aos defensores de qualquer formato:  A graphic Novel Building Stories é eleita o livro do ano nos EUA.

Building Stories (Construíndo estórias) demorou uma década para ser produzida por Chris Wave e foi publicado pela editora Phantheon Books. A obra surpreende por seu formato diferenciado: uma caixa de tamanho A3 com 14 publicações de diversos formatos desde flipbooks, panfletos, revistas tendo um total de 260 páginas.

O “livro” tem como protagonista uma artista, de cabelos marrons, sem nome, que tem a parte inferior de sua perna esquerda amputada após um acidente de barco ocorrido em sua infância.  A obra registra o cotidiano desta artista frustrada e seus vizinhos em um prédio em Chicago.

 Cada morador vive em diferentes andares do mesmo prédio, tendo suas lamúrias representadas em cada elemento gráfico: desde as partículas de sujeira no chão, a cama de solteiro, as fatias de maçã em película coladas em um prato.

O primeiro andar é ocupado pelo proprietário do prédio, um senhor de idade cheio de histórias sem ninguém para contá-las. No segundo andar, reside um casal cujo o grau de infelicidade entre eles deve levá-los a ruir o seu relacionamento. Enquanto o terceiro pavimento é ocupado pela figura principal que vê a sua criatividade sufocada pela maternidade e seus problemas matrimoniais.

Embora a vida dos personagens tende a  mudar em diferentes partes das estória, eles estão geralmente estagnados no tempo. A construção das tramas nos mostra como o tempo passa, ou se recusar a passar. Como as sequencias monótonas que retratam a protagonista passando muito tempo sentada em seu sofá, ou olhando para o relógio, ou deitada na cama, girando e girando. Mostrando o que o tempo nos faz. O quanto pensamos sobre o que aconteceu, como as coisas mudaram e o que poderia ter sido. Há uma transição mais suave e mais convincente entre diferentes pontos de vista quadro-a-quadro do que é normalmente visto na ficção. Ele pode contar duas histórias de uma vez, e nos mostrar o que os moradores do edifício podem pensar um no outro. Eles são infelizes porque estão sós, ou infelizes por estarem com alguém.

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Mesmo com um conteúdo de angústias, a estilização de Wave é rica. Já que sua construção gráfica enfatiza o decorrer do tempo através da leitura de imagens, ao invés de utilizá-la como elementos secundários. Os formatos de cada publicação convém a temática da história, o que já caracterizaria de longe a obra de Wave como uma boa opção de leitura. Todavia o livro tem outra característica bacana: o compilado de 260 páginas não possui uma ordem de leitura. Para ter uma ideia para esgotar a quantidade de combinações narrativas destas página é necessário ler a obra de Wave   mais de 87 milhões de vezes.

O princípio não linear e aberto de BS, se assemelha a uma febre de livros juvenis de suspense que experienciei na década de 90. Eram livretos com pontos de modificação da  estória, como:

Eles caminham pelo corredor sombrio, esperando encontrá-la. No fim se deparam com um corredor a esquerda, ao fundo uma porta, grito mas não conseguem perceber de que direções este foi emanado. Se você quer que eles entrem pela porta a esquerda vá para a página 71,  se quer que eles sigam pelo corredor vá para a página 75.

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O que obrigava o leitor a se tornar um co-autor da história. Com Building Stories o princípio é parecido, entretanto é ainda mais aberto que esses livros, pois não há uma linearidade narrativa e não há necessidade de continuidade, já que o enredo se baseia em memórias, ou momentos pensamentos estagnados que vem a tona de acordo com a escolha do leitor.

Em um evento para lançamento da HQ, Ware revelou essa pretensão com o livro: “Queria que não tivesse começo ou fim e que capturasse a sensação que temos quando nos perdemos em pensamentos”.

Ele confessa que Marcel Duchamp foi uma de suas inspirações. A idéia da caixa parece parcialmente inspirada na obra La Boîte-en-valise, onde os trabalhos consistem em 24 malas que reúnem 69 reproduções de obras de Duchamp, como um museu portátil. A inspiração em Duchamp trouxe um livro  visionário e uma premiação inusitada se pensarmos no tratamento secundário que os quadrinhos tem como produto de massa. Uma luz para que outras obras experimentais possam ser lançadas.

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Um adendo:

Saiu no Estado de São Paulo dia 11 de Novenbro de 2011, uma resenha sobre o livro Building Stories (Construíndo Estórias) de Chris Wave. Building Stories, de Chris Ware, quem quiser dar uma olha fica o link da matéria: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,leituras-combinadas,958755,0.htm

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