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A primeira quadrinista da história: Rose O’Neill

A primeira quadrinista da história: Rose O’Neill

A figura feminina nas artes em geral possui um papel de coadjuvante até o início do século passado. Se antes as mulheres eram apenas temas centrais de estudos, obras e pinturas, nos foi permitido no último século se emponderar. Ainda há muito há ser feito. Pesquisando sobre a figura de Rose O’Neill e a falta de informação sobre ela, quero apontar o quanto ainda pode ser feito pela história e carreira das mulheres nos quadrinhos. Até então, a maioria de quadrinistas que eu conhecia desde que comecei a desenhar, eram mulheres japonesas contemporâneas.

A quadrinista com a publicações em quadrinhos mais antiga que tinha em mente era Machiko Hasegawa, criadora de Sazae San. O  lado bom é que Sazae San possui a série de desenhos animados mais longa da história, talvez por isso tamanha popularidade. No entanto, é desconcertante pensar que a figura central é uma dona de casa. Essa crítica não desmerece o trabalho das donas de casa, até porque mulheres do mundo todo se dividem numa dupla jornada entre trabalho e casa. Mas a popular associação biológica com as mulheres e os assuntos domésticos, somado a popularidade da história em uma sociedade extremamente patriarcal como a japonesa, me fizeram deixar Sazae-san de lado e  partir para o lado ocidental da coisa.

No Wikipédia é possível achar uma ordem cronológica meio fora de ordem sobre mulheres que produzem quadrinhos. A série é dividida por regiões, mas achar o artigo somente em inglês me deu raiva, tudo bem que o inglês é uma língua franca, mas é extremamente importante que este tipo de artigo deveria estar acessível a pessoas de diversas nacionalidades em diversos idiomas. Lendo sobre os quadrinhos norte americanos, sigo a ordem do post, e não encontro uma ordem cronológica fidedigna. Rose O’Neill foi a primeira mulher a publicar uma história em quadrinhos, o fato não é mencionado no Wikipédia apresentando mulheres que produzem quadrinhos. Isso já me deixou meio chateada.

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Rose O’Neill possui feitos brilhantes, aos 13 anos ganhou um concurso de ilustração infantil para o Omaha Herald e dois anos depois a artista conseguia ajudar sua família financeiramente com suas obras. Na época seus trabalhos eram assinadas com suas iniciais para que não fosse reconhecida como mulher, a ilustração era uma profissão predominantemente masculina. Aos 19 anos se mudou para Nova York em busca de melhores oportunidades de trabalho, morou em um convento, e teve ajuda de freiras na divulgação seu trabalho. Um ano da primeira história em quadrinhos a ser publicada “Yellow Kid” na Truth Magazine, Rose publicou, em 1986, sua primeira tira em quadrinhos chamada “The Old Subscriber Calls”.

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No mesmo ano, ela passa a publicar na revista Puck, onde criou cerca de 700 desenhos, sendo a primeira mulher a participar da equipe da revista e a primeira a falar de racismo.

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Alguns anos depois O’Neill se casou, mas o cara se aproveitou da popularidade dela, passando a viver com um playboy. Insatisfeita se divorciou em 1901, passou a se dedicar ao seu trabalho e um ano depois se casou novamente com seu editor assistente.

Anos depois, a artista desenvolveu personagens de design cativante, conhecidos como Kewpies, publicados pela primeira vez no Ladies’ Home Journal em 1909. Inicialmente O’Neill os chamava de Kewpie Kutouts, uma derivação do nome cupido, até que os personagens tiveram seu nome abreviado para Kewpies, estas figuras fofas lhe renderam a criação do PRIMEIRO brinquedo de produção em massa da história.

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Os primeiros Kewpies eram feitos em papel pela própria artista, logo em seguida passaram a ser produzidos em biscuit na Alemanha. Os bonecos de formas arredondadas e tamanhos variados tinham corações impressos no peito. Com início da 1ª Guerra Mundial, a produção migrou por diversos países até chegar aos Estados Unidos. Devido à fragilidade do material, o biscuit foi substituído pela celulose, alguns modelos eram comercializados com braços articulados e até roupas. Em 1949, a empresa Effanbee desenvolveu a primeira versão em plástico do boneco, logo a seguir versões de vinil e borracha macia foram produzidas pela Cameo Co. and Jesco entre as décadas de 60 e 90.

Os kewpies lhe renderam o título da quadrinista mais bem paga época. O’Neill foi grande defensora do movimento feminista suas imagens ilustraram cartazes do movimento sufragista, tomando frente de manifestações e chegando a representar as artistas pela Associação Nacional do Sufrágio Feminino. A artista faleceu em 1944 e possui um museu em Springfield sobre seu trabalho.

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Sua figura é extremamente marcante. Porém, sua história só pode ser encontrada em poucos idiomas, no Wikipédia só podemos achamos informações em inglês ou francês. Suas criações, os kewpies, tem uma página no mesmo site traduzida em 05 idiomas. Não há NENHUMA tradução oficial em PORTUGUÊS da obra da autora. Como primeira quadrinista do mundo fica no completo anonimato?

Fui procurar em fontes alternativas e encontrei no google apenas DUAS publicações em português sobre a autora, o primeiro deles era uma tradução simplificada do artigo do wikipedia, publicado em 2014:

Já o segundo link, recomendo para todos que quiserem conhecer o lado ativista de O’Neill referente aos direitos da mulher, e que coincidentemente, foi publicado poucas horas antes de produzir este post:

http://ladyscomics.com.br/rose-e-o-sufragio-feminino

Se considerarmos 10 anos da popularização dos blogs e afins não tivemos nenhuma preocupação em investigar a história de Rose O’Neill e tantas outras quadrinistas,e apresentá-las ao público e artistas brasileiros.

A falta de material sobre a artista nos leva a questionar o buraco no cenário e na história da nona arte sobre as quadrinistas. Como mulheres temos que questionar a falta de espaço para personagens do gênero feminino, além do número de profissionais no mercado. O número de consumidoras tem aumentado vertiginosamente, histórias em quadrinhos produzidas por mulheres se mostram altamente rentáveis. – Um exemplo é Fruits Basket, produzido por Natsuki Takaya. Este shoujo foi o mangá mais vendido nos USA em 2006, chegando a marca de 2 milhões de impressões. – Então por que esse anonimato?

Mesmo sendo a primeira mulher a publicar uma história em quadrinhos, Rose O’Neill não é conhecida como a “Rainha dos Comics”. Não importa a visibilidade do trabalho para outras mulheres, muito menos ter ilustrações responsáveis pela primeira linha de brinquedos produzidos em larga escala. A figura emblemática que se separou e casou de novo em menos de um ano, devido a desvalorização do fruto do seu trabalho, há 115 anos. O’Neil se emponderou, usou seu trabalho para lutar pelos direitos da mulheres, falou sobre racismo, foi lá representar mulheres no sufrágio! Como nós não sabemos bulhufas sobre ela?

Vamos agradecer, conhecer e finalmente ocupar o espaço que foi aberto por Rose O’Neill, produzindo como mulheres para todos os públicos. Emponderar nossos trabalhos, questionando a realidade das mulheres no mundo todo! A arte é a melhor maneira de fazer isso.

tumblr_mph0xp2X0W1rgg81io1_1280Feliz dia das mulheres, um salve para O’Neill e todas as artistas do mundo. Desejamos que todas possam produzir e tornar do conhecimento de todos a história das mulheres na conquista de direitos iguais.

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